Dieta humana nos últimos 20 mil anos trouxe grandes mudanças físicas


Dieta humana nos últimos 20 mil anos trouxe grandes mudanças físicas

Por Juliana Blume, em 15.03.2018
Como ainda continuamos evoluindo, o papel crucial da dieta não deixou de existir. O que comemos hoje pode influenciar a direção que tomaremos amanhã.

Leite


Quando mamíferos são filhotes, eles produzem uma enzima chamada lactase para ajudar a digerir a lactose do leite materno. Assim que esses bebês crescem, o leite deixa de ser uma opção de alimento e a enzima não é mais necessária, então mamíferos adultos geralmente param de produzi-la.
Um terço dos seres humanos, porém, continua produzindo a enzima durante toda a vida, o que significa que são tolerantes à lactose depois da infância. O curioso é que diferentes partes do mundo mostram maior ou menor tolerância ao açúcar do leite. Pessoas de países do leste asiático, oeste africano, Grécia e Itália são especialmente intolerantes à lactose, enquanto 95% das pessoas do norte da Europa são tolerantes ao açúcar.
“Em pelo menos cinco casos diferentes, populações melhoraram o gene responsável por digerir o açúcar para que ele continue ativo na fase adulta”, diz Hawks.
Testes de DNA antigos mostram que essa tolerância à lactose é recente. Há 20 mil anos, esta habilidade só existia entre bebês e crianças pequenas. Hoje, 33% da população mundial consegue digerir bem o leite.

Esta mudança evolutiva sugere que consumir o leite diretamente ao invés de ter que fermentá-lo para fazer iogurte ou queijo seria uma vantagem. Na fermentação, bactérias quebram os açúcares do leite, facilitando a digestão. Mas essas bactérias cobram um preço: uma boa parte das calorias do alimento é consumida por elas.
Portanto, as pessoas que viviam em um ambiente com pouca oferta de alimento conseguiam consumir mais calorias se tomassem o leite sem precisar fermentá-lo. Quem tivesse acesso a vacas, ovelhas, cabras ou camelos consumia mais energia e se saía melhor que aqueles adultos que não conseguiam digerir este alimento.
Hoje em dia, porém, muita gente tem acesso a alimentos de todos os tipos ou a comprimidos de lactase que ajudam na digestão dos laticínios. Isso significa que tolerância a lactose pode não ter o mesmo impacto que tinha antigamente.

Trigo


A habilidade de digerir glúten – a principal proteína do trigo – também é relativamente nova na história da humanidade. Nós não começamos armazenar e comer grãos com regularidade até 20 mil anos atrás, e a plantação de trigo só começou há 10 mil anos.
As pessoas que sofrem com a doença celíaca têm uma reação imunológica à ingestão do glúten, uma proteína do trigo, cevada e centeio. A prevalência da doença celíaca, porém, não parece estar aumentando nem diminuindo nos últimos milênios.

Carboidrato

Outros exemplos de evolução através da dieta são bastante misteriosos. A amilase salivar é a enzima responsável pela digestão dos carboidratos. Historicamente, pessoas do oeste da Eurásia e da Mesoamérica têm mais cópias do gene responsável por sua produção. Isso significa que essas pessoas foram selecionadas para diferir carboidratos melhor? “Isso é convincente e pode ser verdade. Mas a biologia é complicada e não sabemos com certeza como isso funciona e qual a importância disso”, diz Hawks.

Alimentação com menos peixe


É possível que a dieta também influencie na cor da pele. A hipótese principal sobre a variedade de tons de pele no mundo todo diz que populações de países de baixas latitudes recebem mais raios UV e desenvolvem mais melanina para proteger a pele dos danos solares. Já as populações que recebem menos raios UV conseguem sintetizar a vitamina D de forma mais eficiente com menos melanina.
Mas estudos de DNA que comparam ucranianos modernos com seus ancestrais pré-históricos mostram que a cor de pele dos Europeus tem mudado nos últimos 5 mil anos. Para explicar isso, outra teoria sugere que a cor da pele pode ter sido influenciada pela dieta, quando os primeiros fazendeiros sofriam com pouca vitamina D, já que não tinham acesso a alimentos que são fonte desta vitamina. Alguns alimentos como salmão, atum, sardinha e ovos são fontes da vitamina D, embora o sol seja responsável por entre 80% e 90% de toda a vitamina D que o corpo sintetiza.
Nina Jablonski, pesquisadora sobre cores de pele da Universidade do Estado da Pensilvânia (EUA) afirmou à revista Science que pesquisas “trazem evidências de que a perda de dieta regular com vitamina D como resultado da transição para um estilo de vida em torno da agricultura pode ter engatilhado a evolução para cores mais claras”.

De olho na evolução

É difícil ver a evolução acontecendo. Mas novas tecnologias como sequenciamento de genoma e programas que conseguem analisar a quantidade massiva de dados estão tornando possível encontrar pequenas mudanças genéticas que podem se somar por muitas gerações e resultar em grandes mudanças físicas.
Hakhamanesh Mostafavi, bióloga evolucionista da Universidade Columbia (EUA) é autora de um estudo que analisou o DNA de 215 mil pessoas para tentar ver como nós continuamos a evoluir em apenas uma ou duas gerações. “Obviamente nossa dieta está mudando radicalmente hoje, então não sabemos que efeito evolutivo isso pode ter. É possível que a mudança não tenha um efeito direto na seleção, mas pode interagir com genes que controlam uma característica”, diz ela. [Smithsonian.com]

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